“Estritamente falando, jamais é possível compreendermos o que quer que seja a partir de uma fotografia” (SONTAG,1984, p.22).

O Flâneur [2005], exposto no Espaço Arco em 2006 e no Canal Café em 2008, teve início a partir do interesse pela materialidade orgânica apresentada no trabalho de alguns artistas como: Rubens Oestroem, quando usa carvão, como pigmento; Paulo Gaiad, quando explora suas memórias; e nas experiências de Giana Traple, colega de curso, em seu trabalho com tingimento de papéis com chás naturais. Logo fiz conexão com algo que, na época, estava em evidência na natureza, que eram as painas a se agitar e cair das paineiras. Paina é o conjunto de fibras sedosas, parecidas às do algodão, que envolvem as sementes de várias plantas, em especial da família das Bombacáceas.
Foram utilizados: caldo de beterraba, chás (diferentes tipos), café forte, erva mate, casca de cebola roxa, a tinta aquarela (deixou a paina opaca), entre outros.
Foi então que conheci a obra do artista plástico Andy Goldsworthy, que costuma fazer grandes bolas de neve com materiais recolhidos na natureza (galhos secos, flores, sementes, terra, etc.). Durante o processo de recolhimento de painas, foram arrecadadas também suas sementes, visto que a paina é o invólucro da semente. Logo passei a elaborar um modo de utilizá-la, bem como achar uma maneira de usar a idéia de Goldswothy, no sentido de fazer o espectador voltar-se para a natureza, em especial à paisagem e ao que esta acontecendo nela, suas mudanças de estações.
Foram utilizadas duas vasilhas de vidro no formato redondo (dois semicírculos). Depois pensaria numa maneira de ligá-las, mas logo percebi que não seria necessário, pois os semicírculos de água, sementes e terra, congelados, pareciam uma deliciosa sobremesa. “[...] a preocupação da realidade que a câmara possibilita deve sempre ocultar mais do que revelar” (SONTAG,1984, p.23).
Por mais de quatro horas acompanhei o degelo registrando, através de fotos, cada passo. Assim, alguns sentidos foram aguçados, pois estimulava a visão e o paladar à medida que derretia. Aos poucos a maciez da paina e o formato das sementes foram surgindo, transformando o aspecto de “doce” em “bichinhos de pelúcia”.
O resultado foi exposto em forma de livro, “consertina”, aberto, além de alguns elementos que fizeram parte do feitio.
